O ponto comercial de Julia Pimentel Ramos, 73 anos, é um canto de rua. A vendedora não paga aluguel, nem impostos. Mesmo assim, na informalidade, ela, a irmã Alice Ramos e a filha Zuíla Pimentel ajudam a movimentar o comércio da Belém. Mais do que isso, não esperam ajuda de governos. Tiram o sustento da família do próprio trabalho.
Em um carrinho adaptado, Júlia vende tacacá, uma das principais comidas típicas do Pará. A venda do produto começou em 1970. “Logo depois que me separei do meu marido, coloquei neste mesmo lugar uma mesinha com um ‘fugarero’ de carvão ao lado. Trazia tudo prontinho nas panelas e vendia por 0,50 cruzeiros (0,50 centavos) cada cuia”, lembra Júlia.
Júlia aprendeu a preparar o tacacá vendo a mãe cozinhar em casa. Com cinco filhos pequenos para criar, Júlia buscou na venda dessa comida típica o refúgio temporário para a situação de desemprego, só que ao contrário do que imaginava se apaixonou pelo negócio e mantém fixo a banca até hoje. “Só vou parar quando eu morrer. Minha filha é que vai me substituir. A venda não pára”, afirma com empolgação a vendedora.
Em 40 anos de comércio, Júlia é considerada uma das ‘tacacazeiras’ mais famosas da capital paraense. O ponto, localizado na Avenida dos Mundurukus no bairro da Cremação, é bastante freqüentado por clientes. E a freguesia é variada. Além dos moradores de Belém, tem quem venha de outros municípios do estado como Barcarena, Santa Izabel do Pará, Capanema, e até de outros estados brasileiros como de Goiás, Rio Grande do Norte, Maranhão e Pernambuco. “Tem gente que vem até de Portugal! Quem mora aqui sempre indica o tacacá da ‘tia Júlia’ para os turistas”, brinca Zuíla, irmã da vendedora.
Mas qual será o segredo dessa fama? O tacacá produzido por Júlia é 100% artesanal. Tudo é preparado em casa: a mandioca moída, o tucupi, a goma, o jambu e os outros ingredientes. “O segredo é não passar do ponto a fervura do tucupi, e se chover tem que ter cuidado, o clima de chuva pode estragar, o tucupi fica amargo”, revela a ‘tacacazeira’. Mas não é difícil descobrir que esses não são os únicos pontos fortes de todo esse sucesso. A clientela também é conquistada de outra forma: “meu sorriso! Risos... e, claro, um bom atendimento” diz Júlia.
A vendedora só se esqueceu de um detalhe. Parte dessa fama também se deve a Benedito do Espírito Santo, 60 anos. Seu ‘Bené’, como é conhecido, é o companheiro de Júlia. Para compor a renda ele sempre trabalhou no mercado informal, em feiras, por exemplo. Há 15 anos, quando era atravessador no Porto da Palha na Avenida Bernardo Sayão, em Belém, um encontro mudou de vez a vida dele. “Um dia Júlia foi comprar mandioca no porto e eu que vendi a mandioca pra ela. Daí, depois disso, a gente se encontrou numa festa de brega na cidade e o namoro começou!” lembra Benedito. Logo os dois ficaram juntos e hoje seu ‘Bené’, é o braço direito de Júlia, ajuda em todos os passos no preparo do tacacá.
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| Benjamim Silva |
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| Maycon (vermelho) |
Maycon Barbosa, que estava de viagem a trabalho em Belém, aproveitou o feriado de sete de setembro para experimentar o tacacá. “Nunca tinha tomado, parece sopa, mas é gostoso e bem forte”, diz o turista. Benjamim Silva, de Pernambuco também aprovou. “Uma delicia, apesar de forte”, diz ele. Quem os trouxe para a banca da ‘tia Júlia’ foi Celso Vaz, que freqüenta o local há cinco anos. “Prefiro aqui por causa do sabor e simpatia. Além do preço é claro. Afinal tudo isso acaba cativando o cliente”, afirma o professor. Renato Costa, 59, já virou cliente de carteirinha. Ele vem ao local há 20 anos. “É o melhor lugar pra tomar tacacá. O tempero é diferente. Ao lado do meu estabelecimento tem uma banca de tacacá, mas eu nunca vou lá prefiro pegar o carro e vim até aqui”, revela o empresário.




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